Quando percebi. Lá estava eu no banco de trás do carro do meu pai, pensando porque a vida é tão boa e generosa para algumas pessoas e já para outras é tão injusta e decepcionante. Não encontrei a resposta.
Lá estava eu, pensando porque pessoas tão ruins maldosas e sem sentimentos tem tanto na vida, como beleza e dinheiro. Enquanto pessoas boas, generosas e humildes tem tão pouco, tão pouco que não tem nem onde morar e nem oque dar de comer aos seus filhos. Não encontrei a resposta.
Lá estava eu, pensando porque o meu pai tinha tanta raiva de mim. Porque ele apontava os meus defeitos como se eu já não soubesse que tinha vários. Porque ele é sempre tão frio comigo á ponto de ver as lágrimas escorrerem abundantemente dos meus olhos e não sentir nenhum pouco de compaixão ou até mesmo pena de ver aquela boneca de porcelana se quebrar toda diante de palavras tão rudes. Simplesmente faladas sem pensar. Porque toda vez que ele fazia isso, sem cessar no dia seguinte me pedia desculpas e me dava vinte ou trinta reais, não que o dinheiro não seja bom, mas eu não posso enfiar ele pela garganta e remendar os buracos que ele sempre deixa no meu coração com aquelas palavras que dizia. Não encontrei a resposta.
Lá estava eu, pensando porque minha mãe luta tanto, trabalha tanto, sofre tanto para termos oque temos e mesmo assim é tão injustiçada e mal recompensada pela vida, claro, ela tem saúde e isso é maravilhoso. Mas sei que ela merece muito mais. Não encontrei a resposta.
Lá estava eu, pensando porque mesmo tendo saúde, oque comer e onde morar eu sou tão insatisfeita, rebelde e ingrata com a minha vida . Porque eu nunca estou satisfeita com oque eu tenho, quero sempre mais e mais. Porque eu tenho essas atitudes que tanto abomino nas outras pessoas. Não encontrei a resposta.
E nesses dez ou quinze minutos que fiquei com a cabeça encostada na janela do carro do meu pai, pensei tantas coisas. Refleti muito sobre as coisas que estão acontecendo na minha vida. Chegando em casa, joguei minha bolsa na cama e parei enfrente ao espelho perguntando a mim mesma: "Qual é o seu problema?". Não encontrei a resposta.
Minutos depois o meu celular toca. E adivinhem quem era? Era aquela minha amiga que trocou nossos onze anos de amizade por uma amizade de uma semana. Ela me contou que brigou com a sua nova "amiga" e me contou também como foi a festa de quinze anos da menina que estudo com agente no jardim de infância. A festa que a menina convidou todos que estudavam com agente, menos eu. Pode ser drama, mas isso me magoou muito. Ficamos ali vinte minutos conversando e jogando papo fora como se nada tivesse acontecido. Desliguei o celular e novamente parei na frente do espelho e me fiz mais perguntas: "Porque ela só te ligou agora que não tem mais ninguém para conversar?" "Porque ela só se "importou" agora que não tem mais ninguém para se importar com ela?" "Será que as pessoas pensam que você é um objeto que ela usam quando precisam e descartam quando não precisam?" "Porque a tal menina convidou todos para a festa menos você?". Não encontrei a resposta.
Nesse segundo a porta do meu quarto se abriu e minha mãe entrou, então contei para ela toda a situação. Ela ficou triste. E vi uma lágrima escorrendo dos seus olhos. Ela se sentia mal por não poder me dar tudo aquilo que eu almejava. Aquele foi o pior momento! O momento que eu pensei "Senhor Deus, muito obrigada pela minha mãe!" E falei com ela: "Só de eu te ter já me sinto privilegiada mãe!". Agente continuou conversando até que ela me deu boa noite e foi dormir. Foi ai que novamente eu parei na frente do espelho e me perguntei "Oque você fez para merecer uma mãe tão maravilhosa assim?". Não encontrei a resposta.
Apesar de eu não ter encontrado a resposta para as perguntas sobre os defeitos da minha vida, naquela noite eu dormi com uma certeza. Na verdade, eu não dormi com certeza nenhuma. Continuei dormindo com as mesmas dúvidas. Apenas ficou mais claro umas coisas que eu já sabia. Minha mãe é maravilhosa e um dia Deus irá recompensa-lá por tudo que ela faz.
E o resto da dúvidas e incertezas? Continuam sendo dúvidas e incertezas que aos poucos a vida vai esclarecendo pra gente, não adianta esquentar a cabeça com isso agora! Depois daquilo tudo que a minha mãe me disse, eu não me importei mais com o meu pai, com coisas matérias que eu não tinha, com a minha ambição e com as injustiças da vida que eu acho que sofro. Naquele momento eu me senti amada como nunca na vida. O resto que fique pra depois!

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